30/12/2013

AMOR EM UMA LATA DE LEITE


Dois irmãozinhos maltrapilhos, provenientes de uma favela - um deles de cinco anos e o outro de dez, iam pedindo um pouco de comida pelas casas de uma das ruas de São Paulo.

Estavam famintos: “Vai trabalhar e não amole”, ouvia-se detrás da porta; “aqui não tem nada neguinho...”, dizia outro... As múltiplas tentativas frustradas entristeciam as crianças...

Por fim, uma senhora muito atenta disse-lhes: “Vou ver se tenho alguma coisa para vocês... garotinhos!” E voltou com uma latinha de leite.

Que festa! Ambos se sentaram na calçada. O menorzinho disse para o de dez
anos: “você é mais velho, tome primeiro... e olhava para ele com seus dentes brancos, a boca semi-aberta, mexendo a ponta da língua”.

Eu, parado, como um tolo, contemplava a cena... Se vocês vissem o mais velho
olhando de lado para o pequenino...!

Leva a lata à boca e, fazendo gesto de beber, aperta fortemente os lábios para que por eles não penetre uma só gota de leite. Depois, estendendo a lata, diz ao irmão: “Agora é sua vez. Só um pouco”.E o irmãozinho, dando um grande gole exclama: “como está gostoso!”.

“Agora eu”, diz o mais velho. E levando a latinha, já meio vazia, à boca, não bebe nada. “Agora você”, “agora eu”, “agora você”, “agora eu...”. E, depois de três, quatro, cinco ou seis goles, o menorzinho, de cabelo encaracolado, barrigudinho, com a camisa de fora, esgota o leite todo... ele sozinho.

Esse “agora você”, “agora eu” encheram-me os olhos de lágrimas...

E então, aconteceu algo que me pareceu extraordinário. O mais velho começou a cantar, a dançar, a jogar futebol com a lata de leite.

Estava radiante, o estômago vazio, mas o coração trasbordante de alegria. Pulava, com a naturalidade de quem não fez nada de extraordinário, ou melhor, com a naturalidade de quem está habituado a fazer coisas extraordinárias, sem dar-lhes maior importância.


“Nada é pequeno no amor. Aqueles que esperam por grandes ocasiões para demonstrar a sua ternura ao próximo não sabem amar”.