13/01/2014

UM CORAÇÃO DE OURO


A escola e a flor. A flor e a escola...

Tudo ia muito bem quando o inspetor de alunos entrou na minha sala. Pediu licença e foi falar com Dona Cecília, minha professora.
Ele apontou para mim e para a flor no copo. Depois saiu.
A professora olhou para mim com tristeza.

Quando terminou a aula, me chamou.
- Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.
Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais.
- Nosso inspetor de alunos me contou uma coisa feia de você, Zezé. É verdade?
Balancei a cabeça afirmando:

- Da flor? É sim, senhora.

- Levanto mais cedo e passo na casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.
- Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “pequeno furto”.
- Não é não, Dona Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também...

Ela ficou espantada com a minha lógica.
- Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro e eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.

- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro pra comprar um sonho recheado?
- Poderia lhe dar todos os dias, mas você some.
- Eu não poderia aceitar todos os dias.
- Por quê?
- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.

Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
- A Senhora não vê a Corujinha?
- Quem é a Corujinha?
- Aquela moreninha do meu tamanho, que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.

- Sei, a Dorotéia.
- É sim, Senhora. As outras meninas não gostam de brincar com ela porque é moreninha e pobre demais. Então ela fica no canto, sempre sozinha. Eu divido o sonho que a senhora me dá com ela.

Dessa vez ela ficou com o lenço no nariz muito tempo.

- A Senhora, de vez em quando, em vez de dar pra mim, podia dar pra ela. A mãe dela lava roupa para fora e tem 11 filhos, todos pequenos. Minha avó, todo sábado, dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles, e eu, divido meu sonho com ela, porque mamãe ensinou que “a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre”.
As lágrimas estavam descendo.

- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e que vou ser cada vez mais aplicado.

- Não é isso, Zezé. Venha cá.
Ela pegou as minhas mãos entre as dela.
- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.
- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
- Não tem importância. Para mim você tem.

- De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Promete?
- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar:
- Quem me deu essa flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria.
Soltou minhas mãos e falou com doçura:
- Agora pode ir “coração de ouro”...


“Não existe grandeza quando a simplicidade, a bondade e a verdade estão ausentes”. - Tolstoi