04/01/2014

UM HOMEM QUE REESCREVEU A SUA HISTÓRIA


Imaginem um homem descrito como cínico, playboy, jogador, alcoólico, desavergonhado, mulherengo do pior tipo, explorador ganancioso de escravos durante a II Guerra Mundial, comerciante no mercado negro, membro do partido nazista (onde era admirado e estimado) e fabricante de armas para as tropas de Hitler. Assim era descrito Oscar Schindler.

Mas, na verdade quem era este homem, que começou a ganhar milhões de marcos alemães através de uma cruel exploração de trabalhadores escravos e acabou por despender até seu último centavo, arriscando por diversas vezes sua própria vida, para salvar 1.200 judeus?

Oscar Schindler nasceu em 28 de Abril de 1908, em Zwittan, na Tchecoslováquia. Sua família era uma das mais ricas e respeitadas de Zwittan, mas como resultado da grande depressão dos anos 30, a empresa da família foi à falência.

Desempregado juntou-se, como muitos outros na sua situação, ao partido nazista. Foi recrutado pelos serviços secretos alemães para recolher informações sobre os poloneses, sendo que, esta atividade tornou-o muito considerado e estimado e, permitiu estabelecer muitos contatos com oficiais nazistas, o que lhe viria a ser muito útil mais tarde.

Deixou sua mulher em Zwittan e foi para a Cracóvia, na Polônia, onde se estabeleceu. Reabriu uma antiga fábrica de panelas e converteu-a para produção de armamento, empregando 350 judeus, uma vez que estes eram “uma mão de obra barata”.

À medida que o tempo passava, o plano nazista conhecido como “solução final”, começou a acelerar. Schindler descobriu o terror provocado pelos nazistas e começou a encarar os judeus não só como trabalhadores baratos, mas também como pais, mães e crianças expostas à horrível carnificina do projeto nazista de eliminação total dos judeus.

Neste exato momento, inconscientemente, Schindler decide mudar drasticamente o roteiro de sua vida, arriscando-se em um plano para desviar judeus do seu destino provável nas câmaras de gás.

Em sua fábrica, situada no campo de trabalho de Plazow, guardas da SS (o esquadrão de proteção nazista) passam a não ter acesso às suas instalações, sem sua prévia autorização. Na fábrica, os trabalhadores passavam menos fome do que em outras instalações do mesmo gênero. Quando a quantidade de comida atingia o limite crítico, Schindler comprava-a no mercado negro. Os idosos eram registrados como jovens de vinte anos e as crianças, registradas como adultos. Advogados, médicos e artistas, eram registrados como metalúrgicos e mecânicos, tudo para poderem sobreviver como elementos essenciais para a indústria de guerra. Em sua fábrica ninguém era torturado, espancado ou enviado para as câmaras de gás. Durante estes anos, milhões de judeus foram mortos nos campos de concentração poloneses como Treblinka, Majdanek, Sorbibor, Chelmno e Aushwitz.

Por duas vezes ele foi preso pela Gestapo (a polícia secreta nazista), porém, graças aos seus conhecimentos conseguiu ser libertado.

Quando os nazistas foram derrotados na frente leste, Plazow e os campos vizinhos, foram dissolvidos e fechados. Schindler não tinha ilusões quanto ao que ia acontecer, e desesperadamente exerceu toda sua influência junto aos nazistas, através dos seus contatos nos círculos militares e industriais em Cracóvia e Varsóvia e foi a Berlim, para salvar os "seus judeus" de uma morte certa. Com sua vida em perigo constante, usou todos os seus poderes de persuasão, subornou sem qualquer medo, lutou e pediu ajuda. Onde ninguém acreditaria que seria possível, Schindler teve sucesso. Obteve permissão para mudar sua fábrica para Brinnlitz, na Tchecoslováquia ocupada, e a levar consigo todos os trabalhadores judeus, coisa que mais ninguém havia conseguido durante a guerra. Desta maneira, os 1.098 trabalhadores que tinham sido registrados na lista de Schindler, não tiveram o mesmo destino fatal que os outros 25.000 homens, mulheres e crianças de Plazow, que foram enviados para as câmaras de gás de Auschwitz, a apenas sessenta quilômetros de Plazow.

Até à libertação, na primavera de 1945, Oscar Schindler procurou assegurar de todas as maneiras possíveis, a segurança dos “seus judeus”. Gastou todo o seu dinheiro e até mesmo as jóias de sua mulher para comprar comida e medicamentos. Criou um sanatório secreto na fábrica, com equipamento médico comprado no mercado negro. Emile Schindler, sua mulher, tratava os doentes. Àqueles que não sobreviviam era dado um funeral judeu (num lugar escondido), pago por Schindler.

Apesar da família Schindler ter à sua disposição uma enorme mansão junto à fábrica, Oscar compreendeu o medo que os judeus tinham das visitas noturnas da SS. Em Plazow, ele não passou uma única noite fora do pequeno escritório da fábrica.

Sua fábrica produziu munições para o exército alemão durante sete meses e durante este período nenhuma munição passou nos testes de qualidade militar, como ele desejava, pois, nenhuma munição fabricada por Schindler deveria ser responsável por tiros precisos contra possíveis civis inocentes. Incansável, conseguiu ainda, convencer a Gestapo a mandar cerca de cem judeus belgas, dinamarqueses e húngaros para a sua fábrica para “continuar a produção de material de guerra”.

Em maio de 1945 o pesadelo acabou. Os russos ocuparam Brinnlitz. Na noite anterior, Schindler juntou todos na fábrica e despediu-se com muita emoção.

Oscar Schindler e os “1.200 judeus de Schindler” sobreviveram. Poldek Pfefferberg, o judeu que o ajudava a arranjar mercadoria no mercado negro para subornar oficiais nazistas durante a guerra, prometeu mais tarde contar sua história: “O senhor protegeu-nos, salvou-nos, alimentou-nos. Nós sobrevivemos ao Holocausto, a tragédia, a dura batalha, a doença, ao espancamento, a morte! Nós temos que contar a sua história ao mundo”.

A vida de Schindler depois da guerra passou por muitas dificuldades. Ficou privado de sua nacionalidade, imediatamente, após o fim da guerra, tentou, sem sucesso, ser produtor de cinema, sofreu muitas ameaças de antigos nazistas e pediu asilo aos EUA, tendo a permissão recusada por ter pertencido ao partido nazista. Depois disto, fugiu para Buenos Aires, na Argentina. Fixou-se como agricultor em 1946, tendo sido financiado por judeus agradecidos que nunca o esqueceram.

No início dos anos 60, Schindler foi honrado em Israel e declarado "Righteous" (Justo) e convidado a plantar uma árvore na Avenida dos Justos, em Jerusalém. Uma estátua no Parque dos Heróis louva-o como o salvador de mais de 1.200 judeus.

Hoje, há mais de 6.000 descendentes dos “judeus de Schindler” vivendo nos EUA, Europa e Israel, mais do que os aproximadamente 4.000 judeus residentes na Polônia (antes da II Guerra Mundial, a população judaica da Polônia era de 3,5 milhões).


O Oscar Schindler brasileiro.


O diplomata Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), embaixador brasileiro em Paris de 1922 até 1942, sem alarde e lutando contra recomendações oficiais do governo Getúlio Vargas, salvou comprovadamente 475 pessoas de morrerem em campos de extermínio, emitindo centenas de vistos durante os anos mais duros da repressão nazista na Europa.

O número certo de pessoas - judeus, homossexuais, comunistas e outras vítimas do nazismo - que encontraram a salvação graças a assinatura de Souza Dantas não é conhecido. O historiador carioca Fábio Koifman, acredita que possa passar de mil. Foi graças a Koifman e a seu livro Quixote nas Trevas, que o diplomata foi reconhecido.

Não fosse por ele, o ator e teatrólogo polonês Zbignew Ziembinski, por exemplo, nunca teria chegado ao Brasil. Outro que teria perecido na Europa seria o “anônimo” brasileiro, nascido na Antuérpia, Raphael Zimetbaum, morador do Rio de Janeiro.

– “Ele falou para os meus pais e tios que tinha certeza de que estaria salvando nossas vidas”, conta Zimetbaum, que nunca conheceu o diplomata pessoalmente, mas o idolatra.

Souza Dantas foi várias vezes advertido pelo Ministério das Relações Exteriores e ficou numa espécie de prisão domiciliar alemã por catorze meses. Além disso, escapou por pouco das penalidades de um inquérito administrativo aberto, pessoalmente, por Getúlio Vargas, em outubro de 1941. O processo só não foi até o fim porque, no ano seguinte, o Brasil cortaria relações com a Alemanha e Getúlio decidiu abafar o caso.

Sua humildade e humanismo, fizeram com que o embaixador não deixasse muitos documentos. “Fiz o que teria feito, com a nobreza da alma dos brasileiros, o mais frio deles, movido pelos mais elementares sentimentos de piedade cristã”, diz Souza Dantas, ao explicar por que dava os vistos, num documento arquivado por Koifman.

O embaixador, que não figura em nenhum livro de história brasileiro, foi reconhecido pelo Museu do Holocausto de Jerusalém, como “Justo entre as Nações”. Só quem preenche pelo menos uma, de três condições, merece o título concedido pelo museu: arriscar cargo e posição social, arriscar a própria vida e salvar um número expressivo de pessoas. O diplomata não arriscou sua vida, mas quase perdeu o emprego e o status por assinar centenas de vistos para perseguidos do nazismo na França ocupada.

Na época, Souza Dantas ficou conhecido como um exemplo de diplomata. Quando voltou ao Brasil, em maio de 1944, planejou-se uma grande festa com desfile em carro aberto pela Avenida Rio Branco e decretação de feriado nas escolas do Rio de Janeiro. Assessores de Getúlio Vargas, porém, desmobilizaram as boas-vindas.


“Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”.

 - Talmud – Provérbio Judaico