10/05/2014

A BELEZA DO CORPO




Nós vivemos num mundo de mitos e imagens. Com o avanço dos meios de comunicação e o apalermamento ("burrificação") da sociedade, está havendo uma super-estimação da imagem. As pessoas estão sendo acostumadas a não pensar, a não analisar, a não avaliar. A apenas ver, gostar e levar para casa, sem verificar as conseqüências, o que pode acontecer (e que efetivamente acontece) no futuro. A nossa sociedade atualmente é altamente egocêntrica, inconseqüente e feita de sons (palavras ocas e bonitas) e imagens.

Lembro-me do comentário de um colega acerca da época do rádio, onde muitas mulheres se apaixonavam pelos locutores de rádio por causa de sua voz. Imaginavam que fossem altos, musculosos, com ares de galã de cinema, e quando conheciam o tal locutor pessoalmente, era uma decepção sem igual: muitas vezes feio, baixinho, barrigudo, de óculos, e com uma careca avançando pela cabeça.

Na adolescência é bastante comum as pessoas se apaixonarem pela beleza de outras pessoas. Às vezes, o objeto dos desejos (e da paixão) pode ser um atributo em especial: pernas, voz, rosto, cabelos, olhos, etc..

Infelizmente as pessoas, todas elas, tem virtudes e defeitos. Como os dois lados de uma moeda. E não há como nós retirarmos o lado ruim, o lado que nos desagrada.

A paixão é despertada sempre um lado bom, afável, agradável, bonito, forte, generoso, fascinante. E nunca por uma qualidade feia, fraca, arrogante e destrutiva. Se bem que as pessoas, às vezes, são capazes de ver beleza onde ela não existe...

Você já deve ter ouvido a expressão "gosto de tal pessoa", ou algo semelhante. Gostar é um termo egoísta, que significa "me agrada". Nós gostamos de algo ou alguém que, por um motivo ou outro, nos agrada, nos atrai, e nos fascina. Ocorre que o nosso gosto está sujeito à fadiga, ao cansaço, ao desgaste, gerando o que chamo de "efeito chiclete". Você já ouviu falar do "efeito chiclete"? Não? Bem, vamos lá, então. Chicletes são gomas de mascar. Aqueles pedaços de restos de petróleo aos quais são colocados cores e sabores. Esses pedaços de borracha mole são mastigados por algumas horas (ou minutos) até que perdem o sabor. Então são jogados no lixo. Alguns vândalos jogam nas calçadas, e o calor do sol faz com que grudem nas solas dos sapatos, causando um incômodo tremendo. O problema que está a ocorrer é que algumas pessoas (algumas?) usam as outras como se fossem chicletes. Elas ficam juntas com outras pessoas que, por um motivo ou outro, lhes agradam, usando-as, sugando-as, espoliando-as, usufruindo delas, às vezes desfilando com elas como se fossem troféus. E chega um dia em que acaba o gosto, a paixão e a doçura de sua companhia. Quando então tais pessoas são descartadas, abandonadas, jogadas no lixo, desprezadas, com a seguinte explicação: acabou-se o que havia entre nós. Só que pessoas não são chicletes, não são coisas. São pessoas, são seres humanos que tem sonhos, valores, aspirações, desejos, almas que necessitam de carinho, amor e compreensão.

Podemos ver o "efeito chiclete" em casais que são invejados, cobiçados por milhões de pessoas no mundo todo. São ricos, famosos e bonitos. Mas que também estão sujeitos ao problemas comuns aos mais comum dos casais. Você já deve ter visto ou ouvido falar de Bruce Willis e Demi Moore. São ricos, bonitos e famosos. Passaram onze anos casados. E se separaram. Por quê? Porque não estavam mais se entendendo. Porque se cansaram da beleza um do outro. Porque a paixão acabou. O "gosto do chiclete" se perdeu ao longo dos anos tornando a convivência estéril, insossa e, talvez, até mesmo odiosa... A beleza de um corpo não é suficiente para a manutenção de um relacionamento.

Ingrid Bergman (ou coisa parecida), foi uma atriz linda, famosa, rica, desejada e cobiçada há quatro ou cinco décadas atrás. Ela fez um filme chamado "Casablanca", onde fez o papel de uma mulher linda, inteligente, sensível, compreensiva, abnegada, generosa, altruísta. Enfim, o sonho da maioria dos homens cansados de aventuras e do jogo da vida. Depois que ela fez esse filme, ela se casou três vezes, e muitos anos depois, confidenciou que aqueles homens haviam se casado com Gilda (personagem do filme). Dormiram com ela e acordaram com Ingrid. Mais uma vez, a beleza de um corpo não foi suficiente para manter um relacionamento. A imagem de mulher com uma personalidade sensível, inteligente, compreensiva, abnegada, e generosa (que apenas imagem era) foi destruída na manhã do dia seguinte... De se colocar que nos casos de separação, há um ponto que passa ao largo da maioria da população do mundo: a dor e as cicatrizes de uma separação.

Quando uma pessoa se apaixona por outra, invariavelmente está interessada no que pode obter, sugar, retirar, gozar, usufruir. Como uma fonte que mais cedo ou mais tarde vai se secar, ou... como um chiclete que vai perdendo o gosto. Como um filme que vemos várias vezes. A primeira vez nos traz uma sensação de alegria, mistério, nostalgia, emoção e novidade. O que não ocorre com as vezes seguintes. É o que também acontece com a paixão: não resiste ao tempo. E desaparece como a neblina sob o calor do sol. A paixão é egoísta, e busca satisfazer o desejo do apaixonado.

A própria beleza é volátil, efêmera, transitória, passageira. Há algum tempo Isabella Rosselini, filha de Ingrid Bergman, nascida de seu relacionamento com Roberto Rosselini, foi demitida da agência de modelos para a qual trabalhava. Já está com mais de 40 anos de idade, e continua linda como sempre foi, mas não mais o suficiente para os padrões do mundo da moda.

A beleza de um corpo não é suficiente para a manutenção de um relacionamento. Não apenas a beleza, mas quaisquer atributos sobre os quais fundamentamos nossos sentimentos.

O segredo de um relacionamento produtivo e duradouro, é não dar muita importância ao que podemos receber do outro, mas sim o que podemos fazer pelo outro. O que acontece é que algumas pessoas (algumas?), inconscientemente, estão em busca da satisfação de suas necessidades de carinho e companhia. Até que acaba o encanto, a doçura e o mistério e as coisas começam a "andar pra trás". Mas não compreendem porque as coisas não dão mais certo entre si.

Outras pessoas (uma grande maioria), agem de forma consciente e deliberada: estão apenas a usar as outras pessoas para seus propósitos egoístas. Depois que conseguem o prazer que desejam... abandonam "o bagaço" sem o menor pudor ou cerimônia.

Uma vez eu conheci uma mulher bonita, com classe, determinada, inteligente. Mas também fútil, vaidosa e arrogante. Com cerca de 30 anos de idade, já estava com sua vida em ruínas. Já havia tido três ou quatro relacionamentos amorosos. Homens que se sujeitavam aos seus caprichos e seus desmandos até que conseguiam o que queriam. Depois disso.... bem você pode imaginar o que acontecia.

Quando a conheci, ela estava "enrolada" com um marginal, um criminoso que a maltratava, e a explorava. Estava presa a esse homem que a ameaçava de morte. Não sei o que ela viu nesse bandido. Quando eu o vi, estava malvestido, magro e feio. Despenteado, com a barba por fazer, e com dentes desalinhados. E ela permitiu que ele a dominasse e a aprisionasse. Talvez quisesse apenas usá-lo, como fez com os anteriores, mas desta vez, o molho saiu mais caro do que peixe...

Eu gostaria de colocar nesta oportunidade que ninguém jamais será feliz sobre as ruínas da vida de outras pessoas. Utilizar-se de outras pessoas para conseguir o que se deseja (prazer, diversão, fama, fortuna, joias, etc), é uma prática perniciosa e destrutiva. E utilizar-se do próprio corpo para conseguir o desejado é uma coisa que a Biblia chama de "prostituição".

Para que uma união convalesça, perdure e frutifique, é necessário que haja uma união de almas, de objetivos, de espíritos, e não somente de corpos, como é frontalmente alardeado pelos filmes, pelas músicas e pelas novelas da TV.

Amar é dar maior importância à felicidade da pessoa amada do que à propria felicidade. Nós somos felizes à medida que fazemos com que as pessoas que estão conosco sejam felizes.

Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas.(Mt.7:12)

Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando vos deitarão no regaço; porque com a mesma medida com que medis, vos medirão a vós. (Lucas 6:36-38)



Takayoshi Katagiri
fonte: curso de teologia