09/01/2014

AS SANDÁLIAS DE JOSÉ


Há muitos anos, tantos anos que já esquecemos a data exata, vivia em uma aldeia do Sul do Brasil um menino de sete anos, chamado José. Tinha perdido os pais muito cedo, e fora adotado por uma tia avarenta que, embora tivesse muito dinheiro, quase não gastava com o sobrinho. José, que jamais tinha conhecido o sentido do amor, achava que a vida era assim mesmo, e não se incomodava com isso.

Como viviam em um bairro de gente rica, a tia forçou o diretor da escola a aceitar seu sobrinho, pagando apenas um décimo da mensalidade, e ameaçando protestar junto ao prefeito se não fizesse isso. O diretor não teve escolha, mas sempre que podia mandava seus professores humilharem José, esperando que se comportasse mal e tivessem um pretexto para expulsá-lo. José, entretanto, que jamais conhecera o amor, achava que a vida era assim mesmo, e não se incomodava com isso.

Chegou a noite de Natal. Todos os alunos foram obrigados a assistir à missa em uma igreja distante do povoado, já que o padre local estava de férias. No caminho, os meninos e meninas foram conversando sobre o que iriam encontrar em seus sapatos na manhã seguinte: roupas da moda, brinquedos caros, chocolates, patinetes e bicicletas. Iam bem-vestidos, como sempre acontece em dias especiais, exceto José que continuava com as roupas maltrapilhas e as sandálias gastas e pequenas para seus pés (a tia lhe dera quando ainda tinha quatro anos, dizendo que só receberia outro par quando completasse dez anos). Alguns meninos perguntaram-lhe porque era tão miserável, e disseram que se envergonhavam de ter um amigo que se vestia e se calçava daquela maneira. Como José não conhecia o amor, não se incomodava com as perguntas.

Entretanto, quando entrou na igreja, escutou o órgão tocando, as luzes acesas, as pessoas vestidas com o que havia de melhor, as famílias juntas, os pais abraçados com os filhos, José sentiu-se a mais miserável das criaturas. Depois da comunhão, ao invés de voltar para casa com o grupo, sentou-se na soleira da capela e começou a chorar; mesmo que não conhecesse o amor, agora entendia o que era estar sozinho, desamparado, abandonado por todos.

Neste momento, reparou um menino ao seu lado, descalço, parecendo tão miserável como ele. Como jamais o tinha visto, deduziu que devia ter caminhado muito para chagar até ali. Pensou: “os pés deste garoto devem estar doendo muito. Vou dar-lhe uma das minhas sandálias, assim pelo menos alivio a metade do seu sofrimento”. Porque, embora não conhecesse bem o amor, José conhecia o sofrimento, e não desejava que outros sentissem a mesma coisa.

Deixou uma das sandálias com o menino, e voltou com a outra; volta e meia a trocava de pé, de modo a não machucar-se muito com as pedras no caminho. Assim que chegou em casa, sua tia viu que o sobrinho tinha perdido uma das sandálias, e o ameaçou: se não conseguisse recuperá-la até a manhã seguinte, seria duramente castigado.

José foi para cama com medo, pois conhecia os castigos que a tia de vez em quando lhe aplicava. Tremeu a noite inteira, mal conseguiu conciliar o sono, e, quando estava quase conseguindo dormir, escutou muitas vozes na sala de visitas. Sua tia entrou correndo no quarto, perguntando o que tinha acontecido. Ainda tonto, José foi até a sala e viu que a sandália que havia deixado com o menino estava no centro da sala, coberta de todo tipo de brinquedos, bicicletas, patinetes, roupas. Os vizinhos gritavam, dizendo que seus filhos tinham sido roubados, já não haviam encontrado nada em seus sapatos quando acordaram.

Foi quando o padre da igreja onde celebraram a missa apareceu esbaforido; na soleira da capela havia surgido a estátua de um Menino Jesus vestido de ouro, mas com apenas uma sandália nos pés. Imediatamente o silencio se fez, a comunidade louvou a Deus e os seus milagres, a tia chorou e pediu perdão. E o coração de José foi possuído pela energia e o significado do Amor.



Texto de Paulo Coelho, baseado em um conto de 1903, de François Coppée